sexta-feira, 26 de agosto de 2016

938 - TURISTA (Pedra de Clarianã há 7 anos)


       Minha tia Rosa Amélia aceitou meu convite e dias atrás veio conhecer o Estado que me acolheu. Em apenas uma semana de passeio, com sua simpatia e contagiante disposição, saboreou da deliciosa vida no Amapá.

        Comeu várias doses de camarão no bafo na praia do bucólico distrito de Fazendinha. Ao lado da histórica igreja de São José, provou uma cuia do tradicional tacacá, servido na calçada da central e movimentada Rua São José. No Igarapé da Fortaleza tomou açaí "do grosso" misturado com farinha de tapioca. Foi à feira do produtor rural comprar castanha-do-pará, cupuaçu e molho de tucupi. Depois de visitar a Casa do Artesão, bebeu latas de cerveja com sal e limão preparada por Lourival. Em passeios pela orla, especialmente no “lugar bonito”, contando com a proteção das centenárias muralhas da bem conservada Fortaleza de São José de Macapá, se refrescou com a brisa soprada nas margens do gigantesco Rio Amazonas.

       No interior, no aprazível Município de Ferreira Gomes, antes de se deliciar com uma bem servida caldeirada de peixe, minha tia banhou-se feito criança nas águas límpidas do Rio Araguari, bem longe de sua foz e de onde acontece o famoso fenômeno da pororoca.

        É bem verdade que faz muito bem viajar, conhecer novos lugares, contatar pessoas e culturas diferentes. Mas para tia Rosa Amélia sua vinda ao Amapá trouxe ainda mais benefícios. Ao voltar para Várzea Alegre, fez o seguinte comentário:

        - Gostei tanto do passeio que cheguei me sentindo mais jovem e mais bonita. Só quando me vi no espelho do meu quarto notei que ainda continuava com as marcas dos meus setenta e cinco anos de idade.


(imagem Google)

terça-feira, 23 de agosto de 2016

937 - CAIXOTE MÁGICO (Blog há 7 anos)



     Fundada em setembro de 1950, por Assis Chateaubriand, a TV Tupi de São Paulo foi a primeira emissora de televisão do Brasil. Porém, a revolucionária invenção do escocês John Baird demorou a se espalhar pelo restante do país, especialmente pelas pobres regiões do nordeste.

     Também naquela metade do século passado, fugindo das intempéries do sertão cearense, o ferreiro Chico Basil viajou para São Paulo. Na progressista região teve a oportunidade de conhecer o impressionante invento.

     Depois de um bom tempo trabalhando na terra da garoa, na volta para o Ceará Chico explicou para o seu velho pai, Antônio Basil de Oliveira, a novidade do sul:

     - Papai, o sinhô carece vê uma coisa que tem no São Paulo. É uma caixa de madeira que daqui de Várzea Alegre nós enxerga e ouve uma pessoa que tá conversano lá nas banda das Lavras da Mangabeira.

      O cético sertanejo Antônio Basil logo retrucou:

    - Chico, meu fi, deixa de leriado*. Eu ainda tou custano** a acreditar na caixa que só fala e ocê vem com outra que enxerga o povo que noutras paragens.

* vocábulo cearense que significa “conversa fiada”
** flexão do verbo custar, que, no ceará, é sinônimo de demorar
(imagem Google)

domingo, 21 de agosto de 2016

936 - O JEITO DELFONSO DE SER





O artista varzealegrense Idelfonso Vieira Lima não acumulou riquezas, bens materiais. Viveu sempre com simplicidade, sem luxo, sem ambições. Produziu, no entanto, um enorme patrimônio de conhecimento e fez questão de dividi-lo com um grande número de discípulos.

Com seu jeito simples, simpático e bem humorado, o grande pintor desenvolveu características que marcaram sua vida, fácil e imediatamente percebidas por aqueles que com ele conviveram.

Na década de 1980, Delfonso adquiriu uma Brasília vermelha e fez uma viagem de Várzea Alegre a Juazeiro do Norte. Na condução do primeiro e único automóvel do talentoso pintor, seguia um dos seus aprendizes, Airton de Sinhô.

No meio do percurso, após a sede do município de Farias Brito, Delfonso dormia tranquilamente no banco do passageiro, quando acordou com um enorme barulho. Sobressaltado, o artista indagou:

- O que foi isso, Airton?

Ainda nervoso com o susto, o jovem motorista respondeu:

- Foi um cachorro, Delfonso, que atravessou a estrada e eu não consegui desviar.

O saudoso Delfonso, nem quis saber se o choque danificara o seu carro. Curioso, perguntador inveterado, revelando uma das características que marcou sua vida, arrumou os óculos e interrogou:

- E de quem era cachorro?

(imagem Google)

Colaboração: Samoel Moreira de Holanda Junior

terça-feira, 16 de agosto de 2016

935 - DELFONSO E O BOLO DE FORMIGA



Idelfonso Vieira Lima nos deixou, mas permaneceu em todos os que o conheceram a sensação de que ele cumpriu com méritos e simplicidade sua missão na Terra.

Homem de muita sabedoria e inesgotável bondade, desenvolveu e compartilhou com inúmeros jovens habilidades para a pintura, a escultura, a música e outras artes. Não bastasse, Delfonso adorava contar suas histórias, com um estilo próprio e bem-humorado.

Certa vez, na década de 1980, o conhecido artista varzealegrense comprou uma fatia de bolo fofo na Padaria e Lanchonete de Sinhô, localizada na antiga Rua Major Joaquim Alves, no centro da cidade cearense. Em vez de comer no local, Delfonso preferiu levar o bolo para o seu ateliê.

Dias após, Delfonso encontrou com Gean Claude, filho do proprietário e atendente da padaria, e comentou:

- Gean, naquele dia, quando eu lembrei de comer, o bolo tava chein daquelas formiguinhas pequenas. Fiquei com dó de não saborear o bolo. Mas tive uma ideia e todas as formiguinhas ligeiro desapareceram...

- E o que você fez, Delfonso ?? – Perguntou, o curioso Gean.

- Foi simples. Tirei os óculos...

(imagem Google)

Colaboração Gean Claude Alves de Holanda 

sábado, 13 de agosto de 2016

934 - A PINTURA DE DELFONSO (Homenagem do Blog)

 
     O varzealegrense Ildefonso Vieira Lima tornou-se conhecido no centro-sul cearense por suas habilidades na difícil arte da pintura. Vários jovens passaram por seu modesto ateliê e aprenderam a manejar o pincel. Uns permanecem até hoje no ofício e outros, com os ensinamentos do mestre, galgaram profissões diversas ao longo da vida.

Além do incontestável desempenho artístico, o pintor Delfonso também marca pela original forma de contar histórias. De um jeito singelo, simples e ingênuo, narra situações do cotidiano sertanejo.

Outro dia, Delfonso contou que um morador do sítio Panelas, em Várzea Alegre, descia uma íngreme ladeira de bicicleta quando avistou uma pessoa com as calças arriadas e acocorado no meio de uma roça de milho. Ao ver a cena, o indiscreto ciclista gritou:

- Eeeei cagão!

O homem, flagrado na desconfortável situação, levantou as calças rapidamente e buscou localizar o impertinente no leito da estrada vicinal. Ao ver o rapaz que seguia distante, sem saber o que falar, improvisou:

- E tu andadô de bicicleta...

Colaboração: Ropson Frutuoso
(imagem Google)

Obs.: Hoje, o nosso querido Delfonso nos deixou, mas seu legado de simplicidade, afeto e bondade continuará conosco por muito tempo.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

933 - GRAVIDEZ INDESEJADA (Blog há 7 anos)



     Nesta época de rígidas imposições estéticas, a busca pelo corpo perfeito virou obsessão para inúmeras pessoas. Os homens anseiam possuir formas de Deus grego; as mulheres, silhuetas de atrizes e modelos famosas. Embora o excesso de peso se torne cada vez mais comum, ser gordo está completamente fora de moda.

     Não bastasse, os obesos são alvos preferidos de maliciosas piadas e tratados por ridículos apelidos. Ninguém consegue escapar ileso, nem mesmo o famoso jogador de futebol “Ronaldo Fenômeno”, costumeiramente tratado por gorducho.

     O varzealegrense Alberto, proprietário da Casa Zé Augusto, por conta do seu aguçado apetite, sempre cultivou uma barriga protuberante.

      Certo dia, em seu concorrido bar, escutou o comentário e a maliciosa pergunta de um gaiato freguês:

     - Eita que barriga grande, Alberto! Quando a criança vai nascer?

       A resposta do espirituoso comerciante foi imediata:

     - Tá nascendo. O braço já tá no lado de fora. Puxe aqui.


(imagem Google)

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

932 - ROMEIRO EM SALVADOR (Blog há 7 anos)



     Todo turista costuma trazer lembranças de suas viagens, especialmente miniaturas dos pontos turísticos que visita. Assim, quem vai a Paris compra miniaturas da famosa torre construída por Gustave Eiffel para Exibição Universal de 1889. Indo ao Rio de Janeiro é de praxe adquirir pequenas cópias do belo monumento Cristo Redentor, inaugurado em 1931. Aqueles que vêm à Macapá não deixam de buscar pequenas réplicas da imponente Fortaleza de São José, encravada na margem do Rio Amazonas desde a segunda metade do século XVIII.

     Meu querido primo Sérgio Ricardo, no início da década de 70, ainda criança, acompanhou seu pai Sérgio Carvalho em uma viagem para a distante cidade de Salvador. Logo na visita ao centro histórico do Pelourinho, Sergin não esqueceu de pedir dinheiro ao pai a fim de comprar lembranças para suas irmãs Romélia, Rosélia, Rosânia, Rosiana, Rogéria e Romênia.

     No retorno para a pequena Várzea Alegre, o garoto imediatamente entregou as recordações da viagem. Para surpresa das seis irmãs, em vez de réplica do conhecido Elevador Lacerda ou de outros belos monumentos da capital baiana, Sergin trouxe para cada uma das Ro’s uma caneta bastante fabricada e vendida na vizinha Juazeiro do Norte. No singelo presente continha a frase "lembrança de Padre Cícero Romão Batista".

(imagem Google)

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

931 - XÔ STRESS (Blog há 7 anos)


     
      Não há como evitar os aborrecimentos naturais do dia-a-dia. No curso natural da vida o homem vive inúmeros momentos de stress, quando acontece uma reação do corpo a fatores externos desfavoráveis.

      O mal já existia antes mesmo do termo stress ser usado pela primeira vez na primeira metade do século passado. Contudo, encontrou ambiente ainda mais favorável a sua disseminação no apressado, agitado e competitivo mundo dos dias atuais.

      Os profissionais da área de psicologia recomendam várias maneiras de combater o problema, que vão desde a busca de uma alimentação saudável, a prática de exercícios físicos regulares, até a ingestão de medicamentos.

      Porém, o honesto e trabalhador Joaquim Bitu, agricultor que se tornou um próspero comerciante em Várzea Alegre, na sua simples sabedoria de matuto, há décadas desenvolveu uma técnica especial para combater os momentos de turbulência do cotidiano.

      Diante de um aborrecimento ou chateação provocado por qualquer pessoa, o saudoso Joaquim Bitu não deixava transparecer o seu sentimento de indignação. No mesmo instante praticava um gesto que aliviava suas tensões. Com discrição, montava com o dedão da mão direita um obsceno cotoco, escondendo-o no bolso da frente de sua folgada calça de brim bege.


(imagem Google)

domingo, 31 de julho de 2016

930 - DA "MADAREIA" AO 'QUINCUNCÁ"

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Segundo trabalho científico apresentado no V Encontro Nordestino de Biogeografia por Antônia Eliene Duarte e outros especialistas, havia, no alto da serra, um descampado arenoso onde o gado costumava malhar, que, ao longo do tempo, de malhada da areia se transformou na corruptela “madareia”. Por sua vez, no consagrado livro “Os Sertões”, o escritor fluminense Euclides da Cunha cita quincuncá como vocábulo de origem tapuia, grupo indígena que habitava o interior brasileiro, usado para designar acidente geográfico.



Pois no último dia de julho, realizando desejo de nosso pai Luiz Cavalcante, saímos em busca de conhecer essas duas localidades serranas. Madareia, situada no limite dos Municípios de Várzea Alegre e Cariús, e, Quincuncá, no vizinho município de Farias Brito.



Sentindo os fortes ventos e a amena temperatura do local, da bela vista do alto da Serra da Madareia observamos grande parte de Várzea Alegre, mas outras elevações geográficas encobriam a sede do município. Poucos moradores da pequena localidade se arriscaram a abrir portas ou janelas das suas modestas casas, certamente estranhando os inesperados visitantes ou temendo o vento frio da manhã de domingo.



Saindo da Serra da Madareia, seguimos imediatamente em direção à Farias Brito para também conhecer a do Quincuncá. Ali, a íngreme subida foi facilitada pela recente pavimentação da sinuosa estrada que dá acesso às localidade  serranas.



Bem no alto, paramos para conhecer o Pontal do Padre Cícero,  mirante com belíssima vista para o Município de Farias Brito. Reza a lenda que o local foi indicado pelo venerado Padre de Juazeiro como um dos poucos pontos da região para se escapar de uma temida enchente causada por águas das fontes do Cariri, caso houvesse o deslocamento da famosa Pedra da Batateira, no Crato.



Por fim, no alto da serra, após passar pela comunidade do Umari, finalmente chegamos à progressista  Quincuncá, antiga Araticum, onde visitamos a capela de São José e nos encontramos com simpáticos moradores do distrito.  Na conversa, indagamos sobre a origem do nome Quincuncá, ouvindo várias versões.



Porém, de todas, a melhor justificativa para o nome da serra de Farias Brito, escutei há alguns anos da prima Wellen Liberalino. Segundo ela, há muito tempo na localidade dos seus avôs paternos havia apenas uma pessoa que sabia ler e escrever, responsável por redigir as cartas postadas pelos moradores da antiga localidade de Araticum. Quando perguntavam o seu nome, dando origem à denominação do local, ele respondia: “Sou Kinco, Kinco Com K”.

(imagem Google)

sábado, 30 de julho de 2016

929 - RAPADURA

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Hoje, no sitio Macacos, distrito de Mangabeira, Município de Lavras da Mangabeira, visitamos um dos últimos engenhos de rapadura em funcionamento na região centro-sul do Ceará.  Segundo o proprietário, senhor Gabriel Holanda Nunes, conhecido como Bié, de 79 anos, a “moagem” funciona desde à época do seu avô, quando ainda movida pela força animal, por juntas de boi. Dos 36 engenhos que funcionavam em Mangabeira, apenas o do sítio Macacos continua ativo, produzindo a tradicional e deliciosa rapadura.


Em meio roças,  moendas e fornalhas, vários profissionais desempenham suas atividades na produção do saboroso tijolo, tais como os plantadores da cana, bagaceiro, caldeireiro e cacheador. Entre eles, o mestre, que, com sua experiência e prática, decide o momento exato em que o mel pode se transformar em rapadura.


Além dos conhecimentos práticos, adquiridos ao logo de séculos de observação e experiências, várias crenças e superstições envolvem o funcionamento do engenho. Uma delas consiste em parar toda a produção na primeira segunda-feira de agosto, pois esse dia é considerado de “má sorte” e pode causar um acidente ou uma pane nas máquinas.


No engenho dos Macacos, ao contrário de outras indústrias modernas, não há a adição de produtos químicos para aumentar o teor de sacarose na rapadura. Utiliza-se apenas as misturas tradicionais, como a cal, logo após a moagem da cana, que serve para limpar a garapa. No fim do processo, o mestre da rapadura também adiciona o sebo de gado, para endurecer o mel e fazer jus ao conhecido nome do produto final.


Ouvindo atentamente a explicação, meu tio Paulo Danúbio, professor aposentado, perguntou:


- Seu Bié, o sinhô vende esse balde de Sebo de Gado?

- E o senhor vai botar um engenho de cana? – indagou o simpático proprietário da moagem.

- Não, seu Biê, quero ver se esse sebo serve pra endurecer outras coisa...
(imagem Google)

terça-feira, 26 de julho de 2016

928 - II GINCANA CULTURAL E ESPORTIVA DO JUAZEIRINHO

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     Neste último final de semana, a convite de Edinaldo Rodrigues e Sandro Santos, estivemos na zona rural de Várzea Alegre,  sertão cearense, acompanhando alguns momentos da segunda edição da gincana cultural e esportiva do distrito de Juazeirinho.

      Cerca de 100 crianças e adolescentes participaram de atividades promovidas pela Associação Comunitária do Juazeirinho com o apoio do grupo de jovens do vizinho distrito de Canindezinho.

      Foi emocionante e divertido ver jovens e crianças correrem pelos ramais de terra de chão batido. Mesmo sem calçar os tênis apropriados ou até mesmo correr descalços carregando as chinelas nas mãos, meninos e meninas mostraram a força socializante e educativa do esporte.

     Lembrando as tradicionais provas da Semana do Município, ocorreu ainda corrida de jumentos, com os animais montados e guiados por pequenos, corajosos e desenvoltos garotos. Entre as diversas modalidades assistimos à acirrada competição de ciclismo, com a utilização pelos jovens atletas das velhas bicicletas usadas para se deslocar no dia a dia pelas empoeiradas estradas vicinais da região.

      Na parte final das atividades da manhã de domingo, em meio às animadas provas de trancelim e das disputas das cadeiras, fotografávamos algumas frases do mestre Paulo Freire registradas na Escola São Pedro quando o garoto especial Wesley, mesmo com dificuldade para controlar os seus movimentos, fez questão de posar junto com as palavras do consagrado educador.

     O menino Wesley fez brilhar ainda mais a mensagem pintada na parede de que “feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina”. E, ainda, nos fortaleceu a convicção de que abençoada e próspera é a comunidade que permite às suas crianças e aos seus adolescentes conhecer e saborear os deliciosos ensinamentos do esporte e da cultura.

(imagem Google)

quarta-feira, 20 de julho de 2016

927 - DO RIACHO DO MACHADO AO "VELHO CHICO"

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      Navegar é preciso, navegar pelos rios brasileiros é necessário, fascinante e engrandecedor. Assim, semanas após conhecer as águas amazônicas que banham a ilha do Marajó, aproveitamos as férias pelo nordeste do país para beber um pouco da cultura, história e riqueza do Rio São Francisco.

     Saimos de Várzea Alegre, cidade do cariri cearense banhada pelo temporário Riacho do Machado.  Para chegar a Canindé do São Francisco, próximo à barragem e hidrelétrica de Xingó, nas margens do "Velho Chico", viajamos quase 600km pelos Estados do Ceará, Paraíba, Pernambuco, Bahia, Alagoas e Sergipe. No percurso, passamos por vários canteiros da grandiosa obra de transposição das águas do São Francisco para áreas distantes do semiárido nordestino.

     Pelas águas do Rio São Francisco, em um catamarã, participamos de um interessante passeio nominado Rota do Cangaço, seguindo rastros das lendárias histórias de Lampião, Maria Bonita e seu bando. No município de Poço Redondo, desembarcamos e percorremos 600 metros de tortuosa trilha até a conhecida Grota do Angico, local onde, em 28 de julho de 1938, tropas comandas pelo Tenente João Bezerra surpreendeu os cangaceiros, matando Lampião, Maria Bonita e mais 9 seguidores do polêmico “Rei do Cangaço”.

     Em parte do São Francisco, paredões sedimentares, avermelhados, conhecidos como cânions, formam um corredor, lindo cenário em contrastes com as cores azulada ou verde das águas do rio.

      Em Piranhas, cidade alagoana tombada pelo patrimônio histórico nacional, chamada Guardiã do Rio São Francisco, visitamos o museu do sertão e admiramos outros conservados prédios do centro histórico. Naquela simpática cidade, o esforço de subir centenas de degraus para conhecer os mirantes secular e da igreja do Senhor do Bonfim nos trouxe a recompensa de lindas paisagens produzidas especialmente pelo Rio São Francisco.

      Na primeira metade do século passado, favorecido pelo isolamento, Lampião escolheu aquele pedaço do Brasil próximo a divisa de vários Estados para atuação preferencial do seu bando, onde, mesmo assim, foi cercado e morto. Hoje, vencido o isolamento, o São Francisco sobreviveu a vários ataques. Produz a energia que impulsionou o desenvolvimento do nordeste e, torcemos, para que logo distribua  água para molhar as áridas e férteis terras da nossa região.  



(imagem Google)


domingo, 10 de julho de 2016

926 - VENEZA MARAJOARA



Neste fim de semana, atendendo convite do casal Ana Iria e Renato Ribeiro, navegamos por extensas baias da Foz do Amazonas, desde Macapá até Afuá, cidade ribeirinha ao norte da ilha de Marajó. Foi minha primeira vez na “Veneza Marajoara”, assim chamada porque cortada por vários rios, como Cajuuna, Marajozinho e Afuá.

Após deslumbrantes paisagens na viagem em direção ao arquipélago do Majaró, fomos muito bem recebidos em Afuá por seu Dalk Salomão, simpático morador que nos hospedou e nos acolheu com intenso carinho. Eu, minha família e amigos logo nos sentimos em casa.

Caminhando pelas pontes da cidade paraense, algumas construídas em concreto, sentimos a dimensão da vida ribeirinha. A comunidade se mistura aos rios que a banha e se completa com aquelas extensas faixas de águas da bacia amazônica.

            Na movimentada orla, em meio a intenso comércio de produtos da floresta, comprei limões cidra (ou galego). O vendedor me convenceu apresentando as inúmeras qualidades do fruto:

- Tira "pitiú" de peixe e afasta "panema".

            Mesmo me achando cheiroso e me considerando sortudo, resolvi comprar os limões. Afinal nunca é demais cuidar da higiene corporal e sempre é bom reforçar as proteções contra o azar.

            Se na Veneza italiana as gôndolas singram os canais e compõe sua paisagem; na Marajoara, a bicicleta representa o único meio de transporte permitido sobre as pontes. Os serviços de táxi, primeiros socorros, segurança pública, combate a incêndio, transporte pessoal, tudo é desempenhado com o apoio do saudável veículo.

            No período de "agua grande", por volta do mês de março, a maré sobe muito e avança por baixo dos imóveis edificados sobre palafitas. Nesse período, o cemitério da cidade também permanece coberto d'água, razão pela qual os próprios moradores de Afuá brincam que ali o morto morre várias vezes, já que, mesmo enterrado, morre afogado todo ano na água grande.
 
            Os três dias que passamos pela cidade nos deixaram uma ótima impressão, tanto que, na volta para Macapá, na rápida lancha a motor Virgem da Conceição VI, quando ainda atravessávamos a chamada Baía do Vieira, deu saudade da sossegada, agradável e simpática Afuá.

(imagem Google)

terça-feira, 14 de junho de 2016

925 - DO AÇAÍ AO CHIMARRÃO

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No rastro do famoso ditado popular “do Oiapoque ao Chuí”, eu, minha esposa Eliziê e vários amigos, como Ângelo, Paulo, Ilza e Tânia, no último final de semana, cruzamos o continental território brasileiro, do Amapá ao Rio Grande do Sul.


Após meses de dedicada preparação, a equipe amapaense, na manhã gelada de domingo, encarou corajosamente e cumpriu honradamente o desafio de correr os 42 km da Maratona Internacional de Porto Alegre. Os treinos exaustivos no calor da nossa região banhada pelo gigantesco Rio Amazonas premiou o destacado desempenho dos atletas na corrida iniciada na congelante beira do grande Rio-Lago Guaíba.


Os poucos dias na acolhedora capital gaúcha não serviram apenas para participação na tradicional corrida de rua. Provamos do delicioso churrasco, assistimos a vistosos espetáculos de danças tradicionais, conversamos no Mercado Público com o conhecido Gaúcho do Beira-Rio, nos encantamos com o moderno estádio do Internacional, visitamos belíssimos espaços como a histórica Casa de Cultura Mario Quintana e encontramos e conhecemos corredores de todo o país.


Eu, embora inscrito na meia, preferi participar da Maratona de uma forma diferente, seguindo, de bicicleta, os corredores, e, registrando as imagens da inesquecível manhã de 12 de junho de 2016. Como os sete mil e quinhentos corredores, sofri com a temperatura próxima a zero grau, mas me senti aquecido com a emoção e desenvoltura dos nossos atletas.


Na segunda, os corredores, orgulhosos, trouxeram no estufado peito suas medalhas na triunfante volta ao Amapá. Eu, comemorei tudo isso, e, principalmente, o retorno ao nosso calor equatorial, pois, pude, finalmente, em solo tucujus,  rever o meu pinto e tomar um demorado e refrescante banho.
(imagem Google)

terça-feira, 17 de maio de 2016

924 -NASH GRIER

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     Para uma programada viagem, saí de Macapá, na Foz do gigantesco Rio Amazonas, onde os navegadores europeus de meados do milênio passado imaginaram ver o Mar, para a cidade do Rio de Janeiro, localizada na Baia de Guanabara, grande entrada do oceano no continente, que fez os antigos navegadores supor que ingressavam em um grande rio.


      Com minhas duas filhas mais velhas, Alice Maria e Ana Luíza, cruzei o Brasil e visitei a Cidade Maravilhosa para uma programação só delas, assistir ao show do YouTuber e Viner americano Nash Grier.


      Quem tem mais de 20 anos nunca ouviu falar e não conhece esse jovem estrangeiro. Ele não aparece na TV, não é ouvido no rádio e nem lido em Jornais, mas é seguido por mais de 30 milhões de adolescentes em suas redes sociais, o que o torna atualmente o maior influenciador mundial da população juvenil.

      No Rio, mal deu pra caminhar pelos famosos calçadões das praias da Zona Sul e visitar o encantador Museu do Amanhã. Minhas filhas, como centenas de outras, preferiram acampar em frente ao luxuoso hotel onde Nash Grier e seus amigos se hospedaram. Eu aderi ao movimento e ali também montei guarda. Olhando pelas frestas das cortinas observava e avisava a elas sobre eventual aparição de algum dos famosos rapazes.


      Durante o ansiado show, no Circo Voador, ao lado dos exuberantes Arcos da Lapa, fiz fotos com os novos ídolos e acompanhei a histeria das minhas filhas e outras milhares de adolescentes vindas de toda parte do país. Elas choravam, riam ou gritavam ao ver os jovens brincando,dançando ou tocando instrumentos no palco. Cada uma com um moderno telefone, filmando e fotografando todos os lances.

      Testemunhando tudo isso, me dei conta que vivemos uma nova era. Um momento em que jovens escolheram e desenvolveram um poderoso e alternativo canal de comunicação mais forte que as TVs, rádios e jornais juntos. Um tempo em que gravar o espetáculo para publicar nas redes sociais se apresenta mais importante que curtir diretamente o evento.


      Isso é pior ou melhor para a nova geração ? Não sei. Ninguém sabe. O certo é que me diverti, voltei ao meu tempo de menudo e me contaminei com a alegria das minhas filhas e suas amigas. O mundo não se acabou com o gibi nem com outras febres do passado. Não será agora que virei fã e comecei a seguir Nash Grier e sua carismática turma nas redes sociais que o planeta vai chegar ao fim.


     É saudável ficarmos atentos às mudanças, pois, como na história dos grandes navegadores, quase sempre enxergamos apenas o que parece ser.

(Imagem Google)

domingo, 24 de abril de 2016

923 - A "BUDEGA" E OS ROLOS DE FUMO

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A Casa São Raimundo, estabelecimento do ramo de secos e molhados, situada no centro de Várzea Alegre, sertão cearense, completa, neste mês de abril de 2016, setenta anos de funcionamento ininterrupto. Em 1946, foi adquirida pelo comerciante e agricultor Raimundo Cavalcante, popularmente conhecido por Raimundo Silvino.



Em meados do século passado, nas tratativas para compra da budega,  houve um pequeno entrave que quase impediu a concretização do negócio. Mário Cassundé, proprietário, condicionou a venda do ponto comercial à inclusão de uma grande quantidade de fumo em rolos, produzido no sítio Monte Alegre, município vizinho de Farias Brito.



Com a exigência, Raimundo Silvino pensou em desistir, pois suas economias não eram suficientes sequer para comprar a budega, quanto mais com os rolos de fumo incluídos pelo vendedor, o que dobraria a quantia necessária para o negócio, dez contos de reis.



Mesmo assim, acompanhado de seu filho primogênito Luiz Cavalcante, de apenas 10 anos, Raimundo Silvino visitou o depósito repleto de rolos de fumo, localizado no bairro Betânia, na pequena Várzea Alegre. Na ocasião, ao entrar e demorar alguns minutos no recinto, o menino Luiz se embriagou com o forte cheiro exalado pelo fumo.



Mário Cassundé insistiu na venda da budega casada com os rolos de fumo, contudo propôs que Raimundo quitasse inicialmente apenas o valor do ponto comercial, facilitando e parcelando o pagamento da quantia relativa ao fumo:



- Raimundo, você é um homem trabalhador e com crédito. O fumo você me paga na maciota...



Homem corajoso e empreendedor, Raimundo Silvino aceitou as condições e o negócio se concretizou. Em uma sorte comum àqueles que ousam, logo após a compra, o fumo melhorou substancialmente de preço no mercado, permitindo ao novo dono da budega pagar sua dívida com Mario Cassundé bem mais fácil e rapidamente do que esperava.



Atualmente, após 70 anos da compra, Luiz Cavalcante(Silvino), com 80 anos de idade, cheio de energia e disposição, continua a atividade iniciada pelo pai e se orgulha de contar essa história, da qual foi testemunha ainda criança.



Fosse um estudioso, um escritor, o experiente Luiz Silvino poderia lançar um livro de autoajuda para os novos comerciantes e empreendedores, certamente um best-seller, que, entre outras lições adquiridas em várias décadas de balcão, lembraria que não devemos nos apavorar, nem desanimar, quando o fumo entrar no negócio.



(imagem Google)